Bancadas vazias, Espectáculos pobres



Foi notícia no Jornal de Notícias, mas não mereceu destaque, debate ou análise nos dias seguintes. Quiçá por ser um assunto incómodo, que obriga a uma reflexão profunda desde a base até ao topo do futebol e que pode vir a mexer com determinados status perversamente enraziados no futebol português, caso haja vontade em dar o primeiro passo e começar a mudar o rumo do nosso futebol.


Falo da diminuição de espectadores em jogos da Liga Bwin, registada no último ano e que foi alvo de reportagem por parte do JN, na semana passada. De acordo com a matéria publicada, a principal liga profissional de futebol em Portugal registou uma quebra de cerca de 1 milhão de espectadores no último ano. Uma quebra acentuada e suportada na sua maioria pela menor afluência de público no que diz respeito aos estádios dos chamados “três grandes” (cerca de 66%).


São números alarmantes, que deveriam obrigar os principais agentes desportivos em Portugal a parar para pensar e reflectir, sob pena de virmos a ser testemunhas não de um comportamento episódico, mas sim de um comportamento padrão. Mas ao mesmo tempo são números que não espantam, tendo em conta algumas das características do futebol nacional.


A começar pela falta de cultura desportiva. A maioria dos adeptos não gosta de futebol, gosta de ver os seus clubes ganhar. Seja de que maneira for. Pouco importa o estilo de jogo, a forma como a bola entra na baliza adversária, se o espectáculo proporcionado vale o bilhete e os gastos inerentes à deslocação ao estádio (seja em casa ou fora), se o clube é dirigido com transparência, etc. Desde que a bola entre e as suas equipas ganhem, a maioria dos adeptos está feliz.


Isto leva-nos a dois problemas consequentes. O primeiro é o que acontece quando a equipa deixa de vencer. O escrutínio sobre o valor da equipa e do treinador passa a ser outro e a forma mais simples de manifestar desagrado e insatisfação é deixar de ir ao estádio. A equipa começa a sentir-se desapoiada, o treinador começa a perceber que o estádio está cada vez mais vazio e facilmente se percebe que qualquer adversário consegue chegar à sua casa e vencer, desde que se encontre mais bem preparado do ponto de vista mental e psicológico e que seja mais competente dentro de campo, naqueles que são os vários momentos do jogo.


O segundo problema surge quando a Direcção se apercebe do aumento do grau de insatisfação e contestação e sente que também ela pode vir a ser posta em causa. A reacção mais lógica passa por demitir a equipa técnica e apostar num novo comandante…


Este género de decisão, perfeitamente natural do ponto de vista psicológico do ser humano (que reage de forma instintiva e por forma a se proteger sempre que pressente uma eventual ameaça), costuma ser caótico do ponto de vista da gestão e do planeamento desportivo, pois muitas vezes a nova aposta surge sem o mínimo de critério. Ou se aposta numa equipa técnica que se encontra nos antípodas ideológicos e metodológicos da equipa técnica anterior, ou se aposta num dos nomes da moda ou se aposta nos nomes que fazem parte de um circuito restrito e fechado de treinadores que se encontram ligados a grupos de investimento e/ou grupos de empresários que controlam os bastidores de boa parte dos clubes das nossas ligas profissionais, por exemplo.


Chegamos então a outro dos pontos que mais e melhor reflexão deveria merecer por parte de quem dirige os nossos clubes: a definição real e estrutural de um projecto. Infelizmente, e apesar de toda a evolução tecnológica, de todo o upgrade registado ao nível da metodologia de treino e consequentemente ao nível da qualidade cognitiva e técnico-táctica dos nossos jogadores, o dirigismo desportivo no que concerne ao futebol parou no tempo. Utilizando um termo bastante actual, o 5G, enquanto grande parte do futebol nacional avançou a caminho do 5G, o dirigismo parou algures no Paleolítico.


Com isso perdem os clubes, perdem os jogadores, perdem as vilas e cidades onde se encontram os clubes, mas perde essencialmente o futebol. Porque não existem projectos sustentados, não existem projectos com visão de futuro, não existem projectos que envolvam a sociedade à sua volta. Isso acontece porque não existem ideias, porque não há quem queira pensar de forma estruturada e porque dá muito trabalho começar do zero.

É preferível deixar os clubes à mercê de alguns déspotas-mecenas. Ou então entregar tudo nas mãos dos milagreiros investidores estrangeiros, os quais vão investir toda a sua fortuna pro bono de forma paciente e criteriosa. Com a mesma paciência e o mesmo critério que os dirigentes eleitos pelos sócios nunca souberam ter ou deixaram de ter…


A mesma falta de paciência e critério que, por norma, influencia directamente as equipas técnicas, as quais, sabendo da precariedade que lhes assiste e que uma sequência de quatro jogos sem vencer pode ditar o fim de algo que nem sequer começou, optam erradamente (a meu ver) pela via do “ganhar se qualquer forma”. O que implica não valorizar o jogador, não valorizar a equipa, não valorizar o espectáculo e, pasme-se, não valorizar o seu próprio trabalho.


Juntemos a isso a pandemia, o facto dos direitos televisivos estarem nas mãos dos “três grandes”, o facto de termos jogos em dias e horários impróprios para quem trabalha no dia seguinte…Estamos à espera de quê?


Diga-se o que se disser, o futebol é um espectáculo. Aliás, deveria ser um espectáculo. Admira-me como ainda haja quem queira comprar os direitos televisivos dos jogos em Portugal, tal é a falta de qualidade evidenciada (não obstante haver um ou outro clube que tem melhorado as suas prestações em termos qualitativos e quantitativos). E como ainda ninguém quis perceber que estamos a caminhar rapidamente para o início do fim da relação futebol/adeptos…


Redigido por Laurindo Filho


Licenciado em Comunicação Social, possuidor do Nível II (UEFA B), defensor acérrimo do Processo de Treino e eterno apaixonado pelo futebol ofensivo. Treinador Principal com dez anos de experiência de treino. Co-fundador do Futebol Apoiado. Colunista do ZeroZero.pt . “Romântico”, “lírico” ou “utópico”, consoante a ideologia defendida por cada um, mas acima de tudo um ser humano coerente, congruente e de convicções fortes inabaláveis.

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