Saint-Maximin - O Poder da Irreverência ou um Jogador em Vias de Extinção?



O ponto de partida para esta reflexão foi a noite fria de Newcastle upon Tyne, no passado dia 27 de Dezembro, onde o completo avançado francês de 24 anos, Allan Saint-Maximin, em pleno Boxing Day, encheu e iluminou o campo do já lotado estádio de St. James Park, com fintas maravilhosas, acelerações capazes de deixar metade da equipa do Manchester United para trás e mais importante de tudo, golo!


Uma noite em que o Newcastle United entrava sufocado pelos maus resultados que vinha carimbando esta época e na qual tinha de marcar uma posição forte, não só na luta pela permanência na Premier League, como também enquanto projeto desportivo, depois da entrada de capital vindo do Médio Oriente. Ora, desde o primeiro minuto que se percebeu que Saint-Maximin estava inspirado e com o auxílio de um surpreendente Joelinton a carburar na casa de máquinas do meio-campo nortenho, catapultaram os Magpies para um patamar competitivo que ainda não se tinha visto esta época e reduzindo o Manchester United a uma exibição paupérrima e sem brilhantismo.


No entanto, o camisola 10 do Newcastle é mais que um One-Hit Wonder num jogo contra uma equipa do Top 5 inglês. É, acima de tudo, uma chapada de luva branca na demasiada organização coletiva dos jogos da atual Premier League, onde há exceção de certas equipas e jogos, tornou-se um campeonato muito menos espetacular e emocionante do que aquilo que era há uns anos atrás. O francês representa uma enorme lufada de ar fresco na já fria cidade do norte de Inglaterra, que suspirava por magia e espetacularidade desde os tempos de Ben Arfa no The Toon.


Allan nasceu em 1997 nos arredores de Paris e desde de cedo dedicou-se à prática desportiva com bastante sucesso, não só no futebol, mas também no atletismo, algo que hoje é bastante evidente pela enorme capacidade de acelerar com e sem bola. Depois de passar por alguns clubes da região de Paris, assentou, aos 14 anos, em Saint-Éttiene, clube pelo qual se estreou na Ligue 1, sem grande evidência.


Apesar de ter sido contratado pelo Mónaco, em 2015, nunca conseguiu ter uma posição forte no clube monegasco, sendo mesmo emprestado ao Hannover 96 e ao Bastia dois anos seguidos. Mais tarde, em 2017, conseguiu o protagonismo pretendido em Nice, onde protagonizou um jogar extremamente ofensivo e emocionante para as bancadas do Allianz Riviera, juntamente com jogadores como Pléa ou Mario Balotelli (este último disse até que o extremo francês “em dois anos estará no Real Madrid”.


Os golos e as assistências protagonizadas nos dois anos no sul de França (11 golos e 12 assistências), levaram alguns clubes da metade de baixo da Premier League a perder a cabeça no verão de 2019. Falou-se em propostas de Watford e West Ham, mas foi o Newcastle a levar a melhor na contratação da promessa francesa, com uma proposta a rondar os 17 Milhões de Euros.


Numa postura quase provocadora perante os adversários, sempre com as suas vistosas fitas na cabeça, com fintas e mudanças de direção e velocidade estonteantes não demorou muito para que Saint-Maximin apaixonasse os fervorosos adeptos dos Magpies. O Poder da Irreverência do atleta francês, que faz lembrar os velhos tempos de Ricardo Quaresma ou Jay-Jay Okocha, impõe respeito até mesmo aos melhores defensores do Mundo como Varane, Ruben Dias ou Van Dijk.


A variabilidade de opções e o reportório de fintas que tem em seu poder torna qualquer contexto inesperado. Apesar de, preferencialmente, partir bem aberto do lado esquerdo do terreno para poder progredir com bola com o seu pé direito, em diagonal, para a zona central do terreno à procura de espaços para o remate ou para um último passe, Maximin rende igualmente bem no corredor direito devido à sua enorme capacidade de carregar jogo para a frente e de chegar à linha final para assistir um colega, ou na zona central do terreno, onde tem passado várias vezes esta época, numa vertente mais estratégica, como referência ofensiva para transição ofensiva. Apesar de jogar de costas para a baliza ser um dos seus pontos fracos, consegue contornar a situação com um excelente 1º toque, capaz muitas vezes de retirar adversários do caminho. Para além disso, perfila-se muito bem de forma a preparar um ataque à profundidade.


Nas três épocas em St. James Park conta com 11 golos e 12 assistências, números talvez escassos para um avançado, mas facilmente explicados pela pouca produção ofensiva da equipa, principalmente no comando técnico de Steve Bruce. Saint-Maximin é, neste momento, um jogador a preparar-se para outros patamares competitivos, bem acima de uma “simples” luta pela permanência na Premier League. Esse salto pode ser dado com uma transferência para um gigante europeu, já badalado na imprensa britânica, mas também no próprio Newcastle, detido por um grupo árabe ligado à abastada realeza local e agora comandado tecnicamente pelo mais ofensivo Eddie Howe. O clube inglês prepara-se para abanar o futebol mundial com muito dinheiro para captar as maiores estrelas já a partir de Janeiro 2022, mas conta com o extremo francês para continuar a ser uma das caras do clube.


Tendencialmente, as características de Maximin provocam muitas vezes comentários, na minha opinião, menos felizes caracterizando-o como “brinca-na-areia”, “egoísta” ou “jogador de show-off” por alguns adeptos. No entanto, é essa capacidade de proteger a bola, de a guardar, de mudar repentinamente o jogo com uma aceleração, uma finta de livro, uma simulação, um calcanhar, uma letra ou um remate colocado ao ângulo superior que me fazem acreditar que a magia da rua, do bairro, dos ringues pode sobressair no mais importante dos campos de futebol.


Há que respeitar este tipo de jogador para evitar, efetivamente, que entrem em vias de extinção. São cada vez mais escassos estes exemplos de irreverência e espontaneidade no futebol atual, muito por causa da castração e formatação a que são submetidos estes jogadores em prol de algumas ideias de jogo e à relevância dada por muitos treinadores a uma forte organização coletiva em prol do protagonismo e desenvolvimento individual ao longo do processo formativo.


Podemos ficar com a certeza, acima de tudo, que Saint-Maximin continuará a apaixonar os adeptos do futebol inglês e que quando nos quisermos divertir a ver um jogo de futebol podemos ligar a televisão e ver o Newcastle. Mal ou bem, Allan Saint-Maximin procurará ser sempre diferente!


Redigido por Nuno Mota


Licenciado em Ciências do Desporto FCDEF-UC | Mestre em Treino Desportivo para Crianças e Jovens FCDED-UC | Treinador UEFA B | Experiência em todos os escalões de futebol, de sub7 a Seniores, enquanto Treinador Principal, Treinador-Adjunto e Coordenador Técnico Eirense (2010-11), EAS-Coimbra (2012-14), Academia N10 (2014-18), Académica OAF (2018-2021), Clube Condeixa e Sporting CP - AFS Coimbra (época 2021-2022).

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