Tino, está na hora de seres o que já prometeste vir a ser!



Outrora visto como um dos jogadores de maior potencial a jogar em Portugal, Florentino Luís era dos poucos a que se perspetivava uma carreira com passagens por grandes clubes europeus, no entanto o seu percurso tem sido marcado por empréstimos de pouco sucesso e é, neste momento, um jogador muitíssimo menos valorizado no mercado do que aquilo que era no primeiro ano de Lage.


O seu regresso parece ser um pedido expresso de Veríssimo, que vê o plantel sem um único jogador que seja um puro "6". Meité tem maior rendimento num sistema de duplo pivô, era assim que jogava no Milan e Torino, porém, todos já entendemos as razões do clube italiano para o ter colocado na lista de transferíveis. É uma espécie de oposto de Weigl, não acrescentando, todavia, também o rigor defensivo que se pede a um clube como o Benfica.

O alemão nunca será um trinco puro. É, de facto, forte na relação com bola, descobre rotas para início de construção, sai de zonas de pressão com facilidade e oferece fluidez ao jogo ofensivo, no entanto, a capacidade de recuperação de bola, de pressão e de ser eficaz no fecho do espaço em momentos de transição defensiva são lacunas que, mesmo tendo melhorado, ainda não permitem que empreste o equilíbrio necessário para a equipa.


Ora, Florentino surge como uma opção credível para ocupar a posição. Muitos se questionam das razões para a pouca utilização do português em clubes como o Mónaco e Getafe. O comum adepto pergunta retoricamente: "Se não joga no Getafe como é que conseguirá jogar no Benfica?". Na verdade, nem tudo é assim tão simples e depende sempre do contexto do jogador, ambiente e clube.


Florentino inicia a temporada de 19/20 como titular ao lado de Gabriel, porém uma lesão meniscal acaba por lhe roubar protagonismo e não lhe permitir jogar num período de tempo que seria crucial para a sua evolução. Olhando para trás, tendo a achar que uma das razões para a quebra de rendimento com Lage teve uma quanta parte a ver com a lesão do trinco português. Após a lesão do português os resultados apareciam, mas o conteúdo exibicional não era o mesmo, até que uma série absolutamente negra se alastrou e levou ao despedimento do técnico português.


Um dos pontos mais elogiados desse Benfica era a transição defensiva. Samaris e Gabriel, pela capacidade de pressão e de imposição nos duelos, recuperavam várias vezes a posse em zonas subidas e, aí, as acelerações de Rafa, a classe de Félix e a inteligência no último terço de Pizzi faziam toda a diferença. Com Gabriel lesionado, a oportunidade para Tino surgiu e este agarrou-a com unhas e dentes. Vinha com minutos de equipa B que lhe permitiam exibir uma forma física ótima, conhecia o treinador e já treinava à uns tempos acima. O português sempre foi um recuperador de excelência, possuidor de boa capacidade de pressão e foi-se assumindo como um ponto de equilíbrio chave para guiar os encarnados até ao título.


O tempo e a análise semana após semana foi dando aos adversários aspetos menos fortes daquele Benfica que, até então, estavam a ser bem disfarçados. Um deles foi altamente explorado na segunda época de Lage e residia no comportamento com bola da equipa, nomeadamente no risco colocado nas ações, na escassa eficiência do gesto e nas perdas consecutivas que se registavam.


Sem a criatividade e talento de Félix, o Benfica nunca mais conseguiu ter a imprevisibilidade com bola que lhe permitiu ser o melhor ataque de sempre da Liga Portuguesa. Rapidamente se percebeu que o duplo pivô dos encarnados tinha bastante erro técnico e decisional. Quem não se lembra dos passes longos sem sentido de Gabriel ou das perdas de bola constantes de Taarabt. Juntamente, com a pouca eficiência no gesto técnico de Pizzi e Seferovic em espaços reduzidos, das corridas desenfreadas, que não tinham seguimentos, de Rafa e das dinâmicas pobres em ataque posicional, o Benfica acabava por sofrer constantemente momentos de transição. Nessa altura Tino estava aparentemente lesionado e raramente era convocado.


Com JJ o médio português foi emprestado ao Mónaco, dando-se preferência a Gabriel, que também nunca será um "6". Uma decisão altamente contestável.


No Mónaco, Florentino tinha a concorrência de Tchouaméni para a posição. O médio francês é hoje internacional pela seleção principal de França. Resumidamente, Florentino foi para um clube em que a qualidade na posição era muito superior à do Benfica. Além disso, a equipa monegasca privilegiava um duplo pivô a meio-campo. Tendo a achar que Tino sai bastante prejudicado a jogar nesta estrutura. É um jogador que não acrescenta a qualidade ofensiva que se pretende quando surgem apenas dois elementos a meio-campo e sente-se mais confortável em zonas mais recuadas.


Depois da aventura no Mónaco, o regresso à Luz aconteceu, no entanto pouco tempo ficou em Lisboa. O próximo destino foi o Getafe, onde mais uma vez encontrou concorrência de grande nível com nomes como Arambarri, internacional e habitual titular pelo Uruguai, e Maksimovic, internacional sérvio. Além disso, também a equipa espanhola apresenta um meio-campo em duplo pivô.


A concorrência forte encontrada em ambos os clubes, o empréstimo sem opção de compra ao Mónaco e o sistema que não privilegia as suas características dificultaram o crescimento enquanto jogador.


Tudo depende de contextos e quando falamos de potenciação de um jovem jogador, esse pensamento ainda é mais evidente. Para evoluir o jogador tem de ter quem acredite nele, quem promova as suas melhores características e o faça evoluir em treino e jogo. Necessita de ser enquadrado em dinâmicas que o favoreçam, de se sentir confortável no ambiente social do clube e de ter a confiança necessária para ter rendimento em jogo. Florentino somou poucos minutos e, mesmo acreditando que os jogadores evoluem ao longo das suas carreiras, exceto em casos de lesões prolongadas, vejo muito pouco desenvolvimento em termos de qualidade no jogo de Florentino. Talvez a maior é ter experimentado jogar em zonas mais avançadas do terreno.


O talento é enorme, as comparações com jogadores de alto nível foram feitas, nomeadamente com Casemiro, e, atenção, não são descabidas. Florentino pode tornar-se num jogador de rendimento muito elevado, só necessita do contexto certo para isso e de aprimorar alguns défices no seu jogar.


Defensivamente é um médio que qualquer treinador gostaria de ter. Conhece o jogo, é inteligente e possuidor de um excelente rigor posicional. Florentino é altamente focado e disciplinado no processo defensivo da equipa. É exímio no desarme, forte nos duelos, mesmo não sendo super potente a nível físico, tem passada larga, conseguindo fechar vários espaços ao adversário, e é muito forte no momento de reação à perda. É o "6" que permite à equipa ter bola. Uma espécie de "tampão" a meio-campo que tem uma área de abrangência grande, que tem uma leitura do jogo e uma capacidade de pressão fantástica, que recupera bolas atrás de bolas e entrega rápido e bem. Reconhece e antecipa as ações do adversário, é taticamente rigoroso e consegue preencher os 3 corredores.


Qual é a equipa que pretende ser ofensiva e que não tem quem recupere a bola? O jogo nunca será só dos criativos e dos finalizadores. Estes dependem dos homens que recuperam a bola, de maneira a que, com posse, consigam fazer a diferença. Já imaginaram o Sporting sem Palhinha? Ou o Porto sem Uribe? O Benfica necessita há muito tempo de um jogador com estas características, mas o seu rendimento vai depender do tempo de jogo e das zonas onde atuar.


É que, apesar de entregar defensivamente muito à equipa, com bola o português é um médio com grande simplicidade de processos e com uma percentagem de acerto elevada, mas que oferece pouca variabilidade ofensiva. Até sai bem de zonas de pressão, tem uma boa tomada de decisão em construção, executa com qualidade, tem boa capacidade técnica e pouco erro, no entanto arrisca pouco no passe progressivo ou a longas distâncias, é pouco agressivo ofensivamente, lateraliza demasiado o jogo, vê as melhores soluções, mas não arrisca e, por vezes, não consegue resolver autonomamente situações em que se vê com poucas linhas de passe (é um jogador que, por exemplo, tem escassa progressão com bola). Parece-me que tem pouca ousadia e confiança, mesmo tendo todas as condições para entregar mais ao jogo ofensivo da equipa. Nunca será um médio criativo e de chegada, mas no futebol atual pede-se jogadores mais completos e Tino terá de aprimorar aspetos do seu jogo se quiser impor-se em clubes de alto nível.


Parecendo-me que o Benfica aos poucos irá alterar a estrutura tática para o 4x3x3, o trinco português encaixa na perfeição no vértice mais recuado do meio-campo. Á sua frente com João Mário e Paulo Bernardo como homens fortes na criação, Florentino seria o principal responsável por oferecer equilíbrio ao meio-campo encarnado e dar maior liberdade aos homens à sua frente para fazer a diferença em zonas de criação e finalização.


O futebol é regido por relações entre jogadores diferentes que se compatibilizam de acordo com as características de cada um. Jogar com essas características e criar associações entre jogadores é o que fará qualquer equipa estar mais perto do sucesso. Um jogador com muita qualidade não é tão necessário quanto um jogador com qualidade inferior que tenha as características que a equipa precisa naquele momento.


O regresso de Florentino, a concretizar-se, oferece muito mais do que uma mera solução para meio-campo. Com Tino, o jogo do Benfica e algumas individualidades, têm tudo para elevar o nível. É verdade que existe Weigl, mas, caso Florentino mostre o rendimento que teve outrora, poderá roubar-lhe o lugar no onze.


É uma oportunidade maravilhosa também para o jogador provar que as previsões iniciais sobre o seu potencial não eram erráticas. Tem tudo para evoluir enormidades neste Benfica.



Por Diogo Coelho

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